
O que podemos fazer por uma pessoa em processo de luto? Escutar, escutar, escutar.
“À viúva custa-lhe pôr um só prato na mesa”. O primeiro verso do poema “As Costas” de Maria do Rosário Pedreira abriu ontem, dia 24 de março, os Lugares de Encontro, um projeto do Centro Comunitário, dos Ecos Urbanos dirigido a famílias em situação de monoparentalidade, que consiste na realização de encontros quinzenais que promovam o bem-estar e uma permanente construção de rede de apoio entre mulheres.
O tema foi sugerido pelas próprias participantes e dinamizado pela Compassio, uma associação sedeada no Porto focada em colocar a compaixão no centro das relações humanas e das comunidades para melhor lidar com a doença, o envelhecimento, a solidão e a morte.
“Há um medo exagerado da morte. As pessoas vão ficando mais sozinhas e isso não é bom”, alertou Mariana Abranches. A Presidente da Compassio trouxe ao encontro o apelo de quem vive um processo de sofrimento: “deixem-nos falar. Porque quando estamos em sofrimento, queremos ser escutados”.
A Compassio propõe uma nova forma de viver e acompanhar a dor da perda, quebrando o silêncio e criando redes para uma literacia emocional comunitária.
A morte é uma perda, mas não é a única forma de perda. “Estamos sempre em perda. O divórcio, o desemprego, o filho que sai de casa para estudar, mudar de cidade, mudar de casa. Toda a perda importa porque é única e é invisível”, sensibilizou Mariana Abranches. E alertou: “o luto não se resolve. Cuida-se. Não há uma receita. Aprende-se a integrar a dor”.
Do trabalho que tem desenvolvido com pessoas em processo de luto, há uma recomendação que se destaca: escutar é muito importante e faz toda a diferença. “Todos queremos que a nossa dor seja vista, que os outros validem esta dor. Queremos ser vistos”, sublinhou Mariana Abranches. O que podemos dizer à pessoa que perdeu um ente querido e que recorda os almoços que partilharam? “Conte-me mais sobre esses almoços”, sugeriu.
E se escutar é importante, o que dizemos também. Por isso, a Compassio criou o movimento #EMLUTOCONTIGO, onde dá voz à perda e lugar a conversas sobre a morte e as ausências definitivas. O objetivo é mostrar que é possível acolher as pessoas em luto de forma mais compassiva. As dicas passam por oferecer abraços em vez de frases feitas, estar presente nem que seja para ajudar nas rotinas, convidar para sair mesmo que o “não” esteja garantido.
Adorámos este encontro e ficámos a conhecer mais de perto o trabalho da Compassio.
Partilhamos o link para saber mais: https://compassio.pt/
A construção de comunidades mais compassivas começa em cada um de nós e faz-se, sobretudo, juntos.
