Publicado a 10 de Fevereiro, 2026

Ecos Urbanos no Encontro PARTIS & Art for Change na Gulbenkian

Quando a arte cria raízes: Ecos Urbanos levam a voz dos territórios ao PARTIS & Art for Change

A Associação de Jovens Ecos Urbanos (Ecos Urbanos) representada pela Maria João Leite estiveram em destaque no encontro PARTIS & Art for Change, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação “la Caixa”, que decorreu no passado dia 6 de fevereiro, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

A edição deste ano reuniu artistas, investigadores, responsáveis institucionais e agentes comunitários para um dia de reflexão em torno dos direitos culturais, da participação cultural e do papel da arte na transformação social e territorial. Num programa marcado pela diversidade de contextos e experiências, a intervenção dos Ecos Urbanos destacou-se pela ênfase na continuidade, na escuta ativa e na construção de relações duradouras com as comunidades.

Na sessão de abertura, o papel da cultura como motor de desenvolvimento social esteve no centro do debate. Cristina Casalinho, Administradora Executiva da Fundação Calouste Gulbenkian, sublinhou a arte enquanto espaço comum de encontro, pertença e mitigação de vulnerabilidades sociais. Já José Pena do Amaral, membro do Conselho Estratégico para Portugal da Fundação “la Caixa” e da Comissão de Responsabilidade Social do BPI, reforçou a importância de projetos artísticos e culturais pensados a longo prazo, alertando para os limites de intervenções pontuais sem continuidade.

O painel da manhã, moderado por Mariana Maia de Oliveira, centrou-se na relação entre território, cultura e desigualdade. Eliana Sousa Silva, fundadora da Redes da Maré, no Rio de Janeiro, trouxe um olhar crítico a partir da sua experiência em 15 favelas da zona norte da cidade, sublinhando que não é possível falar de cultura quando direitos fundamentais estão comprometidos. Defendeu ainda a produção de conhecimento a partir das próprias comunidades como forma de contrariar narrativas estigmatizantes sobre territórios periféricos.

Foi neste contexto que a intervenção da Maria João Leite, dos Ecos Urbanos, ganhou especial relevância. A sua reflexão destacou a necessidade de criar e sustentar relações de confiança com as comunidades, em particular com os públicos mais jovens, e a importância da presença continuada no território. A partir de exemplos concretos do trabalho desenvolvido pela associação na interseção entre Desenvolvimento Social, Arte, Cultura e Juventude, Maria João Leite reforçou que a transformação social exige tempo, compromisso e enraizamento local.

A experiência dos Ecos Urbanos foi apresentada como um exemplo de trabalho assente na proximidade, na escuta ativa e na criação de espaços seguros de participação cultural, onde os processos se constroem com cuidado e respeito pelos ritmos e identidades de cada território. Esta perspetiva foi partilhada por outros intervenientes do painel, que sublinharam que projetos artísticos de proximidade só o são verdadeiramente quando colocam as comunidades no centro.

Ainda durante a manhã, Nuno Preto, do coletivo Espaço Invisível, destacou a importância de conhecer profundamente os contextos locais antes de intervir, enquanto Mauro Wah, da Associação de Moradores do PER11, deu um testemunho marcante sobre o impacto da demolição do bairro onde vivia e da deslocação forçada da comunidade. A sua intervenção evidenciou como a perda do território implica também a perda de redes afetivas, identidade e quotidianos partilhados.

A discussão prosseguiu com Nuno Preto, que sublinhou que, embora o tempo seja frequentemente associado à qualidade dos projetos, todas as pessoas que chegam, independentemente do momento, têm voz e contributos relevantes. Destacou ainda que o maior legado de muitos projetos reside nas pessoas e nos processos de contágio positivo que se geram, mesmo quando os resultados mais visíveis demoram a surgir.

A reflexão sobre desigualdades territoriais foi aprofundada por Nael d’Almeida, da Associação Nossa Fonte e Kubata, que chamou a atenção para territórios frequentemente definidos pelas suas ausências e dificuldades de acesso. Defendeu que o reconhecimento cultural deve traduzir-se em condições concretas de trabalho, na profissionalização dos artistas e na existência de espaços culturais para além dos espaços de criação.

No painel da tarde, moderado por Kathleen Gomes, o debate centrou-se nas relações entre território, comunidades e políticas públicas. Pedro Adão e Silva abordou as fronteiras geográficas e simbólicas que continuam a gerar desigualdades, defendendo que a cultura pode assumir, no século XXI, um papel semelhante ao da educação enquanto elevador social. António Brito Guterres questionou até que ponto as políticas públicas refletem a diversidade das cidades, enquanto Anabela Rodrigues, do Grupo do Teatro do Oprimido, sublinhou que trabalhar o social é, inevitavelmente, fazer política.

O encontro terminou com várias questões em aberto: como contrariar a hierarquização entre alta e baixa cultura? Existem desertos culturais ou desertos institucionais? E como garantir que a arte e a cultura contribuem efetivamente para a transformação social?

A presença da associação e a intervenção de Maria João Leite reforçaram uma ideia transversal a todo o encontro: a transformação cultural faz-se com tempo, proximidade e compromisso, a partir do local, com escuta ativa e relações duradouras. Uma reflexão que deixou no ar a pergunta final: poderá a arte ser esse lugar comum onde as comunidades se encontram, se reconhecem e constroem futuro em conjunto?

Créditos fotográficos: Carlos Porfírio - Fundação Gulbenkian

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